"TUDO OU NADA" e "MANIA DE QUERER" - Duas preciosidades do acervo da Manchete (Parte II)


“Tudo ou Nada” e “Mania de Querer”: duas preciosidades do acervo da Manchete - parte II


por Duh Secco





Há duas semanas, resgatei aqui no “Mofista”, a convite do querido Tião, a novela “Tudo ou Nada”, que, junto de “Mania de Querer”, representou um marco na dramaturgia da saudosa Manchete. Naquele setembro de 1986, a emissora ousava estrear duas novelas – com intervalo de apenas uma semana de uma para outra – buscando, certamente, equiparar-se à líder Globo, abrindo vantagem sobre as demais concorrentes.


Conforme dito no texto anterior, “Tudo ou Nada” era veiculada às 19h40; já “Mania de Querer” entrava no ar às 21h30. Ambas fugiam do confronto com os folhetins da Globo às 19h (“Cambalacho”) e às 20h (“Roda de Fogo”) – embora o horário eleitoral tenha “forçado” a concorrência direta entre a segunda, trama de Lauro César Muniz marcada pelo sucesso, e o texto de Sylvan Paezzo, dirigido por Luiz Antônio Piá e Walter Campos, com a supervisão de Herval Rossano.

“Mania de Querer” foi a última novela de Sylvan, egresso da Globo – onde assinou as novelas “Vejo a Lua no Céu” (1976) e “À Sombra dos Laranjais” (1977) e os seriados “Shazan, Xerife e Companhia” (1972) e “Sítio do Picapau Amarelo” (1977). Lançada em 22 de setembro de 1986 – e finalizada em 28 de março de 1987, quando a emissora-líder chegava ao fim da primeira semana de “O Outro”, às 20h –, “Mania de Querer” ficou marcada também por representar a estreia de Aracy Balabanian na Manchete, após anos na concorrente, que a demitiu em meio à um processo de contenção de despesas, o que possibilitou o avanço da Manchete sobre valores que fizeram o nome do canal dos Marinho.



Aracy ganhou o protagonismo do folhetim, quando Nívea Maria – recém-saída de “Anos Dourados”, fazendo companhia ao então esposo Herval Rossano na Manchete – deixou a casa, em solidariedade ao diretor, demitido. Desta forma, é possível afirmar que a trama em questão neste post especial se divide entre o “antes e depois” da saída de Vanessa, personagem de Nívea, bem como de seu par, Ângelo, defendido por Carlos Augusto Strazzer (também solidário a Herval). Tal qual acontece com “Tudo ou Nada”, há poucas informações sobre “Mania de Querer” disponíveis na internet. Espero levar aos leitores do “Mofista” novas e preciosas curiosidades, encerrando com chave de ouro o especial de um ano do blog, tão querido, do amigo Tião.






Recentemente, em “Verão 90”, vimos o resgate do “Dia do Confisco”, como ficou conhecida a data – 16 de março de 1990 – em que o presidente Fernando Collor de Mello se apoderou de boa parte da poupança dos brasileiros. “Mania de Querer” também teve início no dia em que o governo federal, então nas mãos de José Sarney, implantou um novo plano econômico, o Cruzado: 28 de fevereiro de 1986. Foi quando os apaixonados Ivan Nogueira (Marcelo Picchi) e Vanessa (Nívea Maria) desembarcaram em São Paulo, após se conhecerem em Los Angeles – onde ela estudava administração de empresas e trabalhava como “scort-girl” (ou acompanhante de luxo) – e passarem uma temporada na Venezuela.



O relacionamento, contudo, padece, desde o início, com uma mentira: Ivan diz à avó, Margô Nogueira (Lélia Abramo), que se casou com Vanessa. A moça, temendo tanto a descoberta de seu passado como a da inverdade do amado, o pressiona a cumprir os ritos do matrimônio. Enquanto isso, a protagonista vai se inteirando do convívio dos Nogueira. A matriarca, Margô, insiste em preservar a imagem do filho morto, atrapalhando o envolvimento da nora, Lúcia (Aracy Balabanian), com o professor João (Leonardo Villar). Já Ivan revela-se um fraco, dado às aventuras amorosas, eternamente perseguido pelo “fantasma” do pai – embora seja um brilhante profissional, consagrado, no exterior, no ramo da engenharia de computadores.

O talento de Ivan o leva para a empresa de Ângelo Sá (Carlos Augusto Strazzer). O que acaba por render dores de cabeça para Vanessa: o patrão do “marido” conhece seu passado de “scort-girl”. Possui, inclusive, slides que podem comprometê-la perante à tradicional família Nogueira. Buscando recuperar tais slides, Vanessa se aproxima de Ângelo; os dois, contudo, só ensaiam um romance quando ela toma ciência das escapadelas do marido – que também prometera casamento a Íris (Mila Moreira), sócia da manequim Mônica (Nicole Puzzi) em uma agência de modelos, e Sandra (Nina de Pádua), tipo obsessivo, que termina por infiltrar Donato (Camilo Bevilacqua), apaixonado por ela, no convívio de Ivan, apenas para monitora-lo.



Sandra era filha de Débora (Maria Helena Dias), uma pequena empresária, que via no Plano Cruzado a chance de progredir com sua boutique. Sem sucesso – em parte pela falta de tino comercial; em parte pelas excessivas preocupações com seus dois pretendentes, Jonas Bustamante (John Herbert) e Rogério Guimarães (Castro Gonzaga). Acontece que Rogério, homem de estreitas relações com a família de Margô, era casado com Léa (Maria Fernanda). O lar em desajuste afetou também o casamento da filha do casal, Júlia (Silvia Salgado), com Nelson (Roberto Pirillo), pais do pequeno Carlinhos (Marcos Alexandre). Em meio ao processo de divórcio, Nelson se envolve com Carolina (Júlia Lemmertz), filha de Lúcia, neta de Margô.



Já Júlia se envolve com Ângelo Sá. Mas o empresário, então mantendo encontros clandestinos com Vanessa, termina por noivar com Marcela (Thaís de Campos), também herdeira de Lúcia, irmã de Ivan. Os ânimos se acirram quando este descobre a gravidez de Vanessa; Ivan, então em um cargo de confiança na financeira de Ângelo, pouco se importa com a novidade. Mudanças também para Nelson, que, irado com a resistência da esposa, Júlia, e o do sogro, Rogério – que não permitem os encontros dele com o filho, Carlinhos – delata os negócios escusos do patriarca dos Guimarães, envolvido com agiotagem. Nelson ainda se indispôs com Getúlio (Renato Borghi), seu colega de redação no jornal onde a denúncia contra Rogério é publicada.




Getúlio, aliás, participava de uma “ciranda” amorosa, comum a toda novela: demitido do jornal, ele empregava-se na agência de Iris, despertando o interesse de Teca (Ana Beatriz Nogueira); mas, neste momento, contudo, ele acreditar estar apaixonado por Carolina, então namorada de Nelson, o ex de Júlia. Esta se envolvia com Mário (Hélio Ribeiro), interessado em descobrir os podres de Rogério. Por fim, Getúlio vai para a cama com Dorotéia (Gisele Fróes), apontada, anteriormente, como pivô da separação, momentânea, de Lúcia e João – o professor, decidido ao viver ao lado da amada, chegou a trocar os anticoncepcionais dela por comprimidos de farinha, acreditando que, grávida, Lúcia se libertaria, enfim, do domínio da sogra, Margô.

A relação doentia de Margô com o filho falecido, contudo, terminou por dominar a ação no terço final de “Mania de Querer”. Aqui, a trama se confunde com os bastidores. Pressionado por executivos da Manchete, que cobravam audiência, Herval Rossano “roeu a corda”. Deixou a casa, o que acabou por levar Nívea Maria e Carlos Augusto Strazzer à rescisão de seus contratos com a emissora. Neste momento do folhetim, Vanessa, grávida de Ivan, volta para Niterói, onde morava antes de se mudar para Los Angeles; Ângelo dá um jeito de emprega-la em uma agência de turismo, chefiada por Regina (Patrícia Bueno). Os dois personagens, tal qual os atores, foram afastados repentinamente da narrativa – o que implicou num novo caminho para Marcela.




A filha de Lúcia, então noiva de Ângelo, se envolve com o velhote Sebastião Cândido (Jofre Soares), julgando estar aplicando um infalível golpe do baú. Cabe a Clóvis (Edson Silva), fotógrafo da agência de Iris – onde Carolina faz sucesso como modelo – e Zé (João Signorelli) alertá-la dos perigos que Tião oferece. Zé é um jovem boa praça, iludido pelo trambiqueiro Pedro Fonseca, ou Pierre Batista (Élcio Romar). O malandro também influencia Lula (Roberto Bataglin), filho de Rogério: o rapaz se mete em corridas de cavalos e chega a roubar os quadros do pai, substituindo-os por réplicas, a mando de Pierre – que mantém sob seu julgo a jovem Beth (Graziela de Laurentis), sobrinha de um desafeto de Rogério, apaixonada por Lula.

O magnata, por sua vez, se redimiu graças à paixão por Conceição (Juciléia Telles), empregada da boutique de Débora. Por ela, Rogério foi capaz de, enfim, deixar Léa. A madame, aliás, tratou de tomar todos os bens do marido – que, mesmo investigado por conta da agiotagem, deixou a mansão em que vivia com muitas promissórias no bolso, a ponto de levar uma vida bastante confortável. Já Júlia padeceu com a morte do filho, Carlinhos, numa queda de cavalo; Nelson, abalado com a partida do herdeiro, se entregou à bebida, o que prejudicou sua relação com Carolina. Já o irmão desta, Ivan, terminou por resolver seus complexos – inclusive a crença de que não podia ter filhos – ao engravidar Sandra.

O desfecho de “Mania de Querer” fez brilhar Lélia Abramo e Aracy Balabanian. Margô, atormentada pelo “fantasma” do filho, trancafiou Lúcia em um quarto escuro, repleto de lembranças do marido – trama similar à de Ema (Vanda Lacerda), de “Tudo ou Nada”. Coube a Inácio (Haroldo Botta), o quarto filho de Lúcia, salvar a mãe da tirania da avó. Nas palavras do autor, Sylvan Paezzo, “todo mundo tem mania de querer alguma coisa. Uns querem o amor, outros a solidão, a amizade, poder, fortuna ou até mesmo o ódio”. Foi justamente o ódio que alimentou Margô – a ponto de diluir o clã Nogueira, tão cultuado por ela, a ponto de intervir negativamente nas vidas e nas escolhas de seus descendentes.




“Mania de Querer” foi reprisada uma única vez, dentro da faixa “Romance da Tarde”. A reapresentação estreou às 18h, na sequência do repeteco de “Tudo ou Nada”; foi deslocada, posteriormente, para às 19h30. Na sequência, “Romance da Tarde” saiu do ar por conta da cobertura das Olímpiadas de Seul, diariamente, às 22h30; os programas da linha de shows foram então deslocados para 19h30 – “Ele e Ela”, com Leila Richers e Luiz Carlos Miele; “Sem Limite”, com Luiz Armando Queiroz; “Nas Ondas do Rádio”. “Cadeira de Barbeiro”, com Cacá Rosset; e “Osmar Santos Show”.



Fontes de pesquisa: Acervo Césio Vital, Acervo Folha de São Paulo, Acervo O Globo e TV-Pesquisa.

Comentários

  1. Lembro-me vagamente dessa novela e da abertura dela e essa linha de shows da Manchete em 1988 eu adorava assistir!!!!

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